quarta-feira, 3 de junho de 2015

Branco e Tinto

Vinho. Curiosa a alteração da perceção que o par nos dá. Preto e Branco, por esta ordem exata, antevê fotografia. No limite albergava contexto das raças do Apartheid. O mesmo vocábulo, branco, emparelhado com tinto evapora-se no álcool. Aqui branco é abuso de linguagem. O vinho branco não o é. Verde, transparente, translúcido, incolor, dourado, caramelo, esmeralda, funcho, tudo menos branco. Porquê branco então? Uma simplificação de linguagem, ou melhor ainda, uma catacrese. Uma reboscada figura de estilo que, por falta de um termo específico para designar um conceito, toma-se outro "emprestado". Assim, passamos a empregar algumas palavras fora de seu sentido original. Branco e tinto seja então sinónimo do vinho. Do de mesa. O que acompanha a carne e o peixe. No vinho ouve-se o pulsar da terra, o sussurro das regiões, a alma dos seus artesãos. Admiro com veneração a mestria dos enólogos. A precisão do seu olfato. O talento das suas decisões, dia após dia, cumulativamente ao longo do ano da poda, passando pela safra até à alquimia final do néctar pronto a consumir. Maduro tinto é para mim o Vinho. O aglomerado maior de sensações. No tinto, cor de sangue, exalta-se o calor do solo, a agrura do tempo (meteorologia), a paciência do tempo (cronologia). O tempo faz o vinho, eleva-lhe a alma. Um bom tinto precisa de tempo para crescer, para se tornar maior. Para sublinhar os seus aromas terciários. Esses que lhe conferem o estatuto de "Ah, este é bom!".Tinto do Douro ou do Alentejo. Do Dão, da Bairrada ou da Estremadura. Taninos, madeira, especiarias, frutos vermelhos, corpo. Os brancos também enchem a alma. Da frescura dos verdes, à elegância dos maduros. Nos verdes, o popular alvarinho é unânime. Agradável, ligeiro e doce. Bebe-se sem cerimónias. O arinto ou o loreiro enchem-me também as medidas. Nos maduros aguçam-me as papilas o fernão pires ou o moscatel. Sim, a casta moscatel num branco de mesa é incrível. Pelo meio e, tal como em tantos outros pares há um misto. O moscatel. Singular, ousado e contemporâneo. Um vinho branco feito com uvas tintas. Perfeito a acompanhar sushi. Branco, tinto ou moscatel, o vinho é um dos prazeres desta vida adulta. Uma recompensa elogiosa no esforço de um pai



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