sexta-feira, 12 de junho de 2015

Proa e popa

País de marinheiros. Portugal tem orgulho quinhentista na epopeia marítima. No século XVI tivemos um papel soberano na descoberta e afirmação de rotas oceânicas, estabelecendo um novo trânsito comercial de pessoas, animais, plantas e bens. Durante largas décadas fomos os maiores. Uma coragem que robusteceu a nossa economia, trouxe poder à monarquia e nos colocou no expoente máximo de desenvolvimento. Foi tão marcante que ainda hoje vivemos dessa memória distante. Não temos mais tradição marítima. Nem comercial, nem turística, nem humana. Vivemos de costas voltadas para o mar. Os portos nacionais com significativo tráfego e comércio é certo, são marginais na economia mundial. O Porto de Leixões, que o Tiago trata por tu e admira, em 2014 acolheu só sessenta e cinco mil passageiros. Não tenho curso de vela, nem de marinheiro, nem de patrão local. Mas gostava. Sinto que tenho essa obrigação. De conhecer mais o mar, de lhe entender os humores, de me inebriar na sua imensidão. Tenho uma íntima curiosidade pela breu profundo do céu em pleno alto mar. Distante de todo e qualquer foco de luz, a abódada celeste terá o seu máximo esplendor aí. Nesse alto mar inóspito, assustador, mas ao mesmo tempo, creio, arrebatador. Proa e popa, duas referências de rumo para homens do mar. Proa lá à frente, onde o casco da embarcação rasga as águas. Popa, lá atrás, onde o remoínho das águas escreve o rasto do percurso. Um binário que, para mim, criatura terrestre me confunde e sempre traz incerteza na afirmação de qual é qual. Repetir, proa é à frente, popa é atrás, proa é à frente, popa é atrás, proa é à frente, popa é atrás, proa é à frente, popa é atrás, proa é à frente, popa é atrás. Recuando novamente quinhentos anos, encontra-se Luís Vaz de Camões (1524 –1580). Nobre poeta Português que, inspirado pelas grandes obras da antiguidade clássida, redige n' Os Lusíadas, a estória na nossa história. Tecnicamente, canta as glórias e os infortúnios deste povo. Narra a histórica jornada de Vasco da Gama na descoberta do caminho marítimo para o Índico. Com dez cantos, a obra divide-se em cinco partes: proposição, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo. Nos grandes navios de passageiros passo mais tempo na popa. Cá atrás. No aconchego dos ventos, a mirar o percurso percorrido. Na nostalgia do porto abandonado, na confiança do ritmo conquistado. Na popa passo sempre. Na abordagem do mar a conquistar, na admiração do rumo certo, num cenário incógnito sem referências, apenas confiante na certeza do destino.





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